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21 Dez 2021

Entrevista a BEZEGOL* “Tenho muito a agradecer à planta, tem-me dado muita inspiração”

O nome pelo qual é conhecido “desde que se lembra de ser gente” veio da canábis, da gíria do Porto, onde a “ganza” ou o haxixe também são conhecidos como “bezegol”. Nascido e crescido no Bairro da Pasteleira, no Porto, BEZEGOL não tem qualquer problema em falar sobre a sua utilização de canábis e, durante a 4ª Edição da Cannadouro, contou-nos como surgiu o seu nome artístico. O nome verdadeiro? Nem nos lembrámos de perguntar, porque, afinal, o que é que isso interessa? O BEZEGOL é o BEZEGOL!

 

Há quanto tempo tiraste a canábis do armário?
(Risos) Eu nunca a tive no armário, para dizer a verdade. Sei lá, o meu relacionamento com a canábis já tem mais de 30 anos, já vem de um tempo em que essa expressão “armário” até tinha sentido, porque o consumo era ilegal, e então obrigavam-nos a viver de uma forma mais clandestina. Hoje em dia podemos estar um pouco mais à vontade. Não é que seja legal, mas o consumo foi descriminalizado e isso foi um avanço muito grande em termos de leis, por variadíssimas razões, porque quando falo de canábis não falo só em fumar uns charros, porque a canábis vai muito além disso. Então, a descriminalização não foi só boa para as pessoas poderem fumar uns charros, mas também para libertar o sistema judicial de processos ridículos de pessoas que eram apanhadas com um bocado de haxixe ou canábis no bolso, para tirar sobrecarga às prisões, porque acabava por haver muitas condenações. Então, o “tirar a canábis do armário”, hoje em dia, significa que podemos dar mais a cara pela causa, sem sermos tão assediados pelas autoridades.

De onde vem o teu nome artístico?
Esta geração nova já não sabe, mas o nome BEZEGOL vem da canábis. Chamam-me BEZEGOL desde que eu me lembro que sou gente, naquele bairro onde nasci, no Porto. Na altura usava-se muito esse termo e eu apanhava os mais velhos a perguntar se tinham “bezegol” ou se havia alguém com “bezegol” e eu achei piada à palavra. Era muito puto e comecei a usar o termo, chegava ao pé do people e dizia: “então, o bezegol, já está resolvido isso?” E eles achavam piada, porque eu era muito puto. “Ah, tu nem sabes o que é isso”, diziam eles. Mas eu estava sempre a dizer, até que, quando dei por ela, eu estava a chegar e eles já começavam: “Olha, vem aí o Bezegol!” Foi o apelido que me puseram, mesmo em puto. Então a canábis acaba por ser uma cena que vive comigo desde sempre.

Como é que vês a situação actual da canábis em Portugal?
É fixe ver estas emoções todas do aparecimento do CBD, dos desenvolvimentos que a canábis está a ter… Continuo a achar um bocado ridículo, ainda, haver este discurso por parte das autoridades, que tem muito peso na legalização (ou não) da canábis, e ouvir estes discursos de que não há estudos suficientes…Em menos de um ano apareceram vacinas para a Covid, esta planta anda aqui há cinco mil anos e ainda não houve tempo para fazer estudos? Não se percebe muito bem. Por exemplo, a legislação para o CBD sem THC, que não é clara… como é que de repente aparece erva nas farmácias, com um preço que é inacessível aos doentes? Na embalagem está lá escrito que, depois de aberto, dura 10 dias. Se uma embalagem custa 150€, quem tiver que a consumir terá de o fazer em 10 dias, vai gastar 450€ por mês! É fixe que tenham legalizado, para os médicos poderem receitar em certos casos; não é fixe a forma como estão a fazê-lo, porque acabam por atirar areia para os olhos, as coisas não estão explicadas como deve ser. Os Media cá ainda funcionam muito na base da demonização, mas se for preciso, no mesmo canal em que demonizaram também passa um reclame a recomendar o uso de canábis. Há uma hipocrisia muito grande nos Media. É claro que também são os lobbies que pagam isso e que fazem com que isso aconteça, mas acho que era preciso — e acho que a CannaDouro faz esse trabalho —, ajudar as pessoas a compreender porque é que as coisas acontecem da forma que acontecem. 

Em que bairro é que cresceste?
Na Pasteleira.

Esse é um bairro típico aqui do Porto?
Mega típico. (risos)

E foi aí, então, que tiveste o primeiro contacto com a canábis?
Sim, claro, no bairro.

Ainda nem sabias o que era! Quando é que…
Aí já sabia o que era! (Risos)

E como foi a tua primeira experiência com canábis?
Já nem posso dizer, exactamente, que me lembro, porque lá está, eu tenho quase 50 anos e teria os meus 13 ou 14, já foi mesmo há muitos anos. Eu lembro-me que, para nós, era o normal, tínhamos ali os amigos todos mais velhos, um gajo roubava ao irmão que tinha em casa ou pedia-lhe, depois metia-se ali na cave a fumar um charrito com os amigos. Depois tínhamos ali aquelas horitas que era para não entrar em casa com os olhos vermelhos, porque se não os velhotes topavam. Mas eu comecei a fumar haxixe, que era o que havia naquela altura. Para te dizer a verdade, o primeiro contacto com a flor já foi muito mais velho, só quase no fim do século é que comecei a ter acesso e a arranjar weed em condições.

De que forma é que  a canábis te ajuda?
A melhor coisa que te posso dizer acerca da canábis é que comigo funciona como um estabilizador. É aquele ritual que eu já sigo há muitos anos e com o qual me sinto bem. Não gosto de consumir canábis para andar feito tonto ou para andar perdido. Como algumas pessoas da minha idade recorrem a medicações para regular isto ou aquilo, eu até hoje tenho encontrado isso na canábis. E tenho muito a agradecer à planta, tem-me dado muita inspiração, ajudou-me a escrever. Tenho pelo menos cinco álbuns que escrevi sob a influência dela.

Pois, eu ia-te perguntar isso, como é que a canábis entra no teu processo criativo?
Honestamente, entra em tudo na minha vida, porque eu acordo e fumo (sou um wake and bake), então a canábis influencia tudo. Naturalmente, fico um pouco mais pausado, e às vezes estou horas seguidas a escrever, depois volto a fumar um e a inspiração volta. O meu relacionamento com a canábis é muito pacífico, nunca me criou transtornos, nunca senti que a canábis me fizesse andar para trás em algum aspecto da minha vida. Até agora, a minha relação com a canábis tem sido a melhor.

Tens noção que a maioria das pessoas não conseguiriam perceber isto…
Sinto pena, porque ainda há uma espécie de estigma para muitas pessoas que não estão dentro disto e partem para aquele julgamento fácil, porque lhes foi incutido estes anos todos, por parte das autoridades, que a canábis era má e prejudicial. É claro que também não vou estar aqui a dizer que se deve pegar na canábis e dar-se às criancinhas. É tal como o vinho, nós somos uma terra de vinho e eu sou contra dar vinho a menores, porque não é a altura certa, não vai contribuir para o seu desenvolvimento. A canábis deveria ser encarada da mesma maneira, com bom senso e responsabilidade. É preciso educar as pessoas, em vez de dizer que é uma coisa má e que ainda não há estudos… isso já é uma conversa gasta e cada vez se prova mais, mesmo com revistas como a CannaDouro, que a canábis não é esse mundo diabólico.

Já disseste que és um assumido wake & bake. Fazes períodos de abstinência, sem fumar, ou já fumas diariamente há muitos anos?
Não, de vez em quando é preciso parar um bocadinho. Há alturas em que fumo menos, em que ando mais ocupado, se ando em estúdio, ou na oficina (tenho uma oficina onde trabalho em ferro), e não sou aquele gajo que tem de parar para ir fumar, nem nada disso. Aguento perfeitamente uma tarde ou uma manhã inteira sem fumar. Se calhar, em altura de férias, fumo mais, mas não tenho uma dose nem uma medida. Também depende da flor que tiver na altura, há umas que me põem mais em baixo, então guardo para quando vou dormir. Gosto de jogar com as índicas e as sativas, consoante o mood em que estou.

É também conforme o teu estado de espírito?
É, e também já fumo há tantos anos… acabas por ter a cena contigo, já te auto-regulas. Depois a canábis tem isso, não é como os comprimidos, que quando tomas demais tens de os ir vomitar, se sentes que estás a ficar chapado demais páras de fumar.

Fumas só ou também gostas dos comestíveis?
Os comestíveis eu não gosto de usar muito. Às vezes, por brincadeira, um amigo que tenha feito dá-me e claro que provo, mas os comestíveis têm um problema que é: eu não controlo bem quando eles se vão activar. Às vezes estás a comer um à uma da tarde e depois às cinco é que aquilo te bate e estás, tipo, numa reunião… é um bocado chato. Não é uma coisa que faça muitas vezes. Mas gosto, por exemplo, de vaporizar.

Também te ia perguntar sobre isso!
Sim sim, e ajudou-me a largar o tabaco, porque fumava muitos cigarros e felizmente hoje já não fumo[tabaco].

Mas só vaporizas a canábis ou ainda fumas?
Fumo, gosto de fumar. E gosto de vaporizar, mas a fumar sinto o sabor da planta, para mim não há nada como fazer um bom charro à moda antiga.

E misturas tabaco ou não?
Depende, às vezes misturo. A nicotina acaba sempre por estar no sistema e nós acabamos sempre por ter aquela traça. Sou dessa geração que fumava haxixe, misturado no tabaco, e foi isso que acabou por me viciar na nicotina. Eu fumava tranquilamente dois maços e hoje não fumo nenhum. Sou capaz de gastar 3 cigarros no dia inteiro. E sinto isso nos pulmões, mesmo a cantar. Antes sentia-me mais preso e agora sinto-me muito melhor.

Tu és um artista e já fizeste parcerias com cantores conhecidos. Alguma vez sentiste estigma por parte de alguém nesse meio?
Há uns anos, sim, de certeza. Havia casas que não deixavam pôr o meu nome à porta, aqui no Norte: “Tu és maluco, vem já a polícia aqui chatear, estar a pôr nome de droga”, diziam eles. Faziam um filme…

Mas isso só no Norte, porque em Lisboa ninguém sabe o que significa Bezegol!
Sim, mas estou a falar de há vinte e tal anos. Às vezes diziam que era porque atraía ganzados, mas a maior parte das pessoas nem se apercebe do que quer dizer e a minha carreira não se resume a ser ‘ganzado’ ou a fumar canábis, como é óbvio. Mas continua a haver situações em que te põem lá fora porque estás a fumar um charro, isso no mundo da música acontece a pacotes. Há pessoas que dizem, a rir-se: “Ah vem aí o BEZEGOL já vai ficar aí o cheiro”, uma piadita, que me estou a cagar… Não sou hipócrita, não sou aquele gajo que está aqui a dar a entrevista e depois vai ali atrás comprar um grama de coca para cheirar logo à noite no clube. Mas hoje em dia isso já está bem mais diluído. Felizmente, os palcos em que a gente toca costumam ser ao ar livre, tens um backstage só para ti.

Tu fumas em qualquer lado tranquilamente?
Respeitando o espaço onde estou, sim, claro. Mas não gosto de ir por Santa Catarina abaixo a fumar, porque lá está, isso é o que eu chamo de bandeiras desnecessárias. A necessidade de uma pessoa fumar canábis não pode ser assim tão forte que não aguente chegar a um sítio mais resguardado. Por isso, não fumo em qualquer sítio, mas se estou numa esplanada onde dizem que posso fumar, aí é claro que não tenho problemas em dar a cara como fumador. Agora dar a cara como agitador… acho que isso não resolve nada. Neste movimento não é de agitadores que precisamos.

Do que é que precisamos?
Precisamos mesmo é disto (Cannadouro)! De mostrar as coisas com pés e cabeça. Falar com o senhor Goulão, que tem sempre tanta coisa a dizer quando vai à televisão, a dizer que isto é o demónio e que vai arrasar famílias… Estamos num país que consome demasiado Xanax, antidepressivos e esse tipo de coisas, que estraga a cabeça ao pessoal. Tenho amigos da minha idade que têm de tomar comprimidos para dormir ou para andarem fixes durante o dia, quando sabemos que a canábis resolve muitos desses problemas, sem causar dependência. A canábis não é esse vício.



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